29 de set. de 2020

QUANTO CUSTA A ILUSÃO NA JUSTIÇA BURGUESA?

No dia 28 de setembro ocorreu o que já era esperado: a justiça burguesa, encarnada nos 22 desembargadores do TJRS, votou contra o pagamento dos dias de greve já recuperados pela nossa categoria. Surpreendeu-se quem esperava algo distinto ou que cultivava ilusões na justiça e na legalidade burguesa.

Há tempos temos apontado todos estes problemas e, principalmente, como o "trabalho de base" da direção central (DC) do CPERS e da maioria das suas correntes planta perniciosas ilusões legalistas na justiça burguesa. A começar pelo ativismo de advogados, que toma a maior parte do tempo das discussões internas nas instâncias sindicais, seja por parte da DC, seja por parte da "oposição" majoritária. Como não semear ilusões, derrotas e desmoralizações com tais práticas?

Por tudo isso nos soa bastante estranha a "extrema indignação" da DC, uma vez que apenas colheu o que plantou. E a saída para esta nova desmoralização? Simplesmente "recorrer" na mesma justiça que nos desmoralizou, mantendo tudo exatamente como está! Sobretudo o sindicalismo "cidadão", de "resultados" (para os governos), praticado pelas centrais sindicais majoritárias que chafurdam na lama do legalismo burguês. Não somos contra ações judiciais e estratégias jurídicas. Somos contra alimentar ilusões na legalidade burguesa, seja ela a jurídica ou a eleitoreira.

Para não dizerem que não falamos de flores: relembrando o debate apresentado ao X Congresso do CPERS!
Na nossa tese ao X Congresso do CPERS escrevemos que as estratégias da direção central e da maioria das correntes sindicais "cria táticas, teorias e projetos paternalistas, de estrito controle sobre as massas, e faz os trabalhadores esperar passivamente um líder, uma política salvadora ou mesmo um messias. Basta assinalar que grande parte da categoria possui inúmeras ilusões na justiça burguesa, confundindo luta sindical com ações na justiça ou com a eleição de um novo candidato 'progressista'. É assim que o CPERS tem educado a nossa categoria. O 'trabalho de base' e a 'formação' da maioria das correntes do CPERS (e, sobretudo, da direção central) reforça esses sentimentos de dependência e, ao mesmo tempo, impotência nos trabalhadores. Não é necessário desenvolver o quanto isso é prejudicial para a luta sindical e política, favorecendo os nossos inimigos de classe. Um sindicalismo novo precisa abolir esta concepção e este tipo de 'trabalho de base', substituindo-o por uma que organize os trabalhadores por local de trabalho, leve em consideração seus anseios, combata a diplomacia secreta, cobre os educadores de base dos seus deveres, mas sempre dando o exemplo antes para que se supere esta mentalidade paternalista e legalista".

No congresso não houve debate sério e não fomos ouvidos, porque lá a discussão é formal e ninguém quer ouvir ninguém sinceramente para extrair o que há de positivo em uma crítica visando tentar colocá-la em prática. No nosso balanço do X Congresso, escrevemos: "com uma só tacada burocrática, a direção central eliminou o debate sobre fundo de greve, reorganização das assembleias gerais, abertura do comando de greve e dos meios de comunicação do CPERS".

Frente às ilusões da proposta de "greve maciça" por parte da DC neste mesmo congresso, que propunha "criar as condições para uma greve vitoriosa", mas que sabotou qualquer tipo de possibilidade nesse sentido, afirmamos: "Nós não esquecemos, nem por um momento, que à frente do nosso sindicato estará uma burocracia sindical que age com os métodos descritos até aqui. E que, além do mais, manobrou para não aprovar resoluções sobre abertura do comando e do fundo de greve, bem como da sua imprensa sindical. O que esperar, então, de uma 'greve maciça' como essa?".

Tais advertências foram lidas e entendidas por poucos, lamentavelmente... Aqueles que dizem não ser possível um fundo de greve ou não conhecem a história do movimento operário internacional ou enganam os trabalhadores conscientemente. Vejam um exemplo da greve da GM nos EUA de setembro/outubro de 2019: "segundo o estatuto do sindicato, a partir dos 15 dias de paralisação cada trabalhador deve cobrar um 'salário' de 250 dólares semanais do fundo de greve do sindicato" (extraído de "Opción Anticapitalista" - MST, Chile, número 71, ano 8, página 11).

O balanço da greve de 2019/2020: quem se interessa pelas lições?
Foi por isso que fizemos um duro balanço da greve de 2019/2020. Nele afirmamos que "a retórica de 'é guerra, é greve' não encontrou respaldo na realidade. Fomos à guerra sem um fundo de greve e munidos com as táticas e estratégias totalmente dominadas pelo inimigo. Ele nos teve na mão durante todo o tempo, sabendo administrar a opinião pública reacionária que lhe era favorável. Tentamos debater tudo isso no X Congresso, mas fomos barrados pelo autoritarismo burocrático, que não deixa a discussão sair de determinados limites".

Também dissemos que "após a ameaça de cortar os salários, o sindicato, disseminando as mais perniciosas ilusões legalistas, se pronunciou dizendo que não havia respaldo legal para que isso se concretizasse e que não recuaríamos em razão de ameaças vazias. Também trouxe uma justificativa de que em 2006 e 2007 o Supremo Tribunal Federal definiu que o corte de ponto, conforme Lei Geral da Greve (7.783/89), não se estende em casos que há atraso salarial. Tudo isso foi solenemente ignorado e patrolado pelo governo do PSDB em conluio com a justiça. (...) A enrolação sobre o fundo de greve cobrou seu preço novamente. O drama do corte do ponto poderia ter sido evitado se o fundo de greve tivesse sido criado honestamente conforme determinação de uma assembleia geral realizada em 2016".

O que é isso se não levar a categoria a confiar na legislação burguesa? Por que não houve, desde então, uma ampla denúncia da justiça dos ricos?

A compreensão equivocada de muitos ativistas da oposição à DC de que bastava seguir com a greve
Frente a mais esta derrota já anunciada, muitos ativistas reforçam as ilusões de que bastaria ter seguido a greve para isso ser evitado. Não, companheiros! Olhemos as coisas mais calmamente. No referido balanço da greve afirmamos que "ativistas independentes e muitas correntes do CPERS não viram problema algum nesta deflagração de greve, como continuaram propondo sua continuidade sem condições e sem a menor preocupação sobre a democratização do comando de greve e a criação de um fundo de greve, tal como se esses pontos fundamentais fossem desprezíveis. Um comando de greve deve se transformar na verdadeira direção da greve, criando vínculos reais com as escolas paralisadas. Nada disso foi feito e a direção central, como já é de costume, não perdeu o controle 'de maioria' sobre o comando em nenhum momento".

E mais adiante: "muitas correntes ignoraram que isso representava um decisivo passo do governo, que foi testando e confirmando sua força contra nós. A retórica de 'seguir em greve' não podia esconder as nossas profundas debilidades e o esgotamento de forças para seguir em greve. Ao invés de recuar para reavaliar o sindicalismo e o programa do CPERS, estas correntes entendem que uma greve já esgotada e dirigida pela atual burocracia sindical seria capaz de derrotar o governo apenas por seguir. Tudo isso não poderia significar mais do que um aventureirismo. (...) Não se trata, portanto, de uma simples questão de data para a deflagração ou continuidade da greve, como sugerem muitas correntes de 'oposição', mas justamente da qualidade do trabalho realizado pelo CPERS, da política e da organização para a greve, bem como sobre a compreensão da correlação de forças, completamente ignorada por elas – o que acaba sendo um presente para a burocracia sindical dirigente".

Algumas conclusões
Para evitar que novas derrotas catastróficas como essas se repitam, precisamos tirar as lições. O primeiro passo é trabalhar por um novo sindicalismo, que faça um real trabalho de base combatendo ilusões legalistas, eleitoreiras e na justiça dos ricos; e não concilie com ela esperando tirar dividendos para as eleições sindicais e o reforço de sua influência burocrática. É fundamental revisar ponto por ponto da atuação do CPERS nos últimos 30 anos. 

Escrevemos no nosso balanço que "o humanismo freiriano é uma necessidade para a nossa nova prática sindical". Nesse sentido, "precisamos aprender a ouvir os outros para dar fim ao 'fascismo sindical' – isto é, terminar com as práticas de abafamento de minorias que tentam sinceramente propor e debater políticas sindicais e o fim do 'grenalismo', que não pode gerar outro sentimento que não o ódio entre nós. Algumas correntes erroneamente pensam que bastava antecipar a deflagração da greve para setembro ou seguir com a greve mesmo sem condições para que, contraditoriamente, todos esses graves problemas e desvios burocráticos se resolvessem por conta própria. Nós entendemos que nada disso poderia resolver estes problemas de burocratismo, que precisam ser enfrentados de frente, com políticas e ações conscientes e decididas".

Cada linha política deve ser apreciada pelo seu conteúdo, e não rechaçada e impedida de se expressar como acontece hoje. Além disso, é importantíssimo superar a cultura do engavetamento de resoluções da oposição: a DC costuma colocar em prática apenas as suas resoluções e não as aprovadas por setores da oposição ou mesmo independentes. Se desesperar, se desfiliar, se apegar a sonhos niilistas ou ultra radicais não pode resolver nosso problema. Apenas o caminho lento e necessário do debate sério, onde as pessoas realmente se escutem na perspectiva da construção de um novo sindicalismo que extirpe o burocratismo do seu meio, pode significar um futuro. Não existem milagres na prática sindical! É hora de tirar as lições, arregaçar as mangas e iniciar o trabalho sem desculpas ou choros de frustração.

O caminho é longo, mas é imprescindível. Mãos à obra companheiras e companheiros!

Elementos do incentivo às ilusões institucionais e eleitoreiras por parte do CPERS: a direção central comemora que "quase 90 municípios já aprovaram moções de apoio ao pagamento dos dias de greve". O que resultou de tais moções se não apenas mais desilusão?















C

Citações:

19 de set. de 2020

PELA ABERTURA DAS CONTAS DO GOVERNO LEITE COM AS OPERADORAS DE INTERNET

Para aplicar a sua "nova economia", EaD e o "Ensino Híbrido" o governo Leite (PSDB e comparsas) não poupa esforços, ameaçando cortar salários pela "efetividade" e, até mesmo, reprovar estudantes. Para ele o "tempo é curto", por isso quer aproveitar a pandemia para fazer tudo a toque de caixa "passando a boiada".Os porta-vozes do governo afirmam que não estão gastando nada com o "convênio" com o google class room. Sabemos que isso é uma "meia-verdade", pois o que não é pago em dinheiro, é pago através do acesso aos dados pessoais da comunidade escolar. 

Google, facebook, whatsapp e outros usam a sua “gratuidade” para acessar a intimidade dos usuários, “mudar a opinião pública” e ter informações de mercado e comportamentais privilegiadas. Inúmeras são as provas disso no escândalo envolvendo a empresa britânica Cambridge Analytica. Contudo, o mesmo não pode ser dito sobre a "gratuidade" da suposta internet "patrocinada" pelo governo a educadoras(es) e estudantes. As empresas de telefonia móvel certamente estão faturando milhões de dinheiro público para "fornecer" um questionável acesso à internet que não atinge sequer metade dos alunos.

Por isso, o CPERS e o movimento sindical organizado devem exigir a abertura das contas do governo Leite nesta relação nefasta com as operadoras de telefonia móvel por uma comissão totalmente independente. Enquanto chora miséria para não pagar salários de servidores públicos, garante o lucro dos empresários deste setor que fornecem um caro e péssimo serviço.

#AberturaDasContasDoGovernoLeite
#AberturaDaRelacaoEntreGovernoLeiteEOperadoras


9 de set. de 2020

O AVANÇO DO GENOCÍDIO EM CURSO COM A VOLTA ÀS AULAS

Os argumentos da ciência não funcionam e não servem de referência para os governos Leite/Bolsonaro, pois esses são os inquisidores da Idade Média, os capatazes dos campos de concentração, os neogenocidas do século XXI, agindo deliberadamente para reduzir a população mundial, aplicando a eugenia e a necropolítica neoliberal. O genocídio em curso contra nosso povo é disfarçado e acobertando pela grande mídia, que passa pano para os argumentos governamentais, e não esclarece de fato o que acontecerá com a volta as aulas.

O isolamento social, sabemos que teve seus problemas, mas também teve seu mérito, porque acabou dificultando a velocidade de transmissão do vírus em escala acelerada. O que deu fôlego para os/as trabalhadores(as) da saúde administrarem a estrutura do SUS, tão solapada por sucessivos governos, para garantir e dar conta das internações e do atendimento das pessoas com a Covid-19 no Estado do RS.

Na perspectiva de que a sociedade do lucro não pode parar, não pode cuidar das vidas, pois os trilhões, quatrilhões de dólares da riqueza produzida pela classe trabalhadora e acumulada por 10% da população mundial, enquanto os 90% são descartados para serem exterminados diariamente. Essa é a lógica que impera desde sempre. Estamos tão anestesiados(as) que nos acostumamos com o extermínio de todos os tipos na história da humanidade; não atuamos como espécie que se preserva e muito menos como classe, pois é essa lógica interiorizada na nossa subjetividade e corpos.

Nesse sentido, voltar às aulas em período de pandemia é crime contra a humanidade; enviar nossos filhos e trabalhadores(as) para serem contaminados(as) e, assim, exterminar as populações mais vulneráveis.

#Nãoavoltaasaulasem2020
#Escolasfechadasvidaspreservadas
#Nãoaogenocídioemcurso

5 de set. de 2020

NOTA DE REPÚDIO CONTRA O FECHAMENTO DA EEEF ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL


Repudiamos os desmandos do governo Leite (PSDB e comparsas), que arbitrariamente executou uma invasão, despejou, saqueou o material existente no local e pretende fechar a EEEF Estado do Rio Grande do Sul. Sua ação foi digna do crime organizado, atuando como bandido, pois mandou arrombar o prédio da escola ignorando e desrespeitando a mobilização da comunidade escolar e de sua direção. Durante a audiência pública na ALERGS para debater o  possível fechamento da escola, o secretário de educação tucano, Faisal Karam, reafirmou que a decisão é irrevogável. Tal afirmação, feita numa arrogância sem precedentes, nos causa a mais profunda revolta e indignação, além de ser o possível início do fechamento de várias escolas públicas. Por isso precisa ser detida agora!

Como vem fazendo, a SEDUC-RS se aproveita do estado de calamidade pública em função da pandemia da Covid-19 para patrolar a escola pública e as(os) educadoras(es). Ignora os apelos da comunidade escolar e passa o rolo compressor neoliberal com a evidente intenção de reduzir recursos financeiros públicos para serem destinados ao setor privado. Aproveita a pandemia, que criou um momento em que as comunidades estão atônitas e fragilizadas, para acelerar seu projeto de Ensino à Distância (EaD), Ensino Híbrido e de "nova economia" — isto é, da "uberização" da educação pública —, drenando, assim, os recursos financeiros do Estado para o setor privado, especificamente para a Fundação Lemann e as operadoras de internet, que devem estar lucrando milhões com a nossa desgraça.

Em contrapartida, diante de tantos ataques, as comunidades ficam a mercê de ações desse tipo. Entendemos que cabe a direção central do CPERS armar as comunidades escolares (em especial a da escola Rio Grande do Sul), mobilizando todo o apoio necessário de correntes internas, agrupamentos militantes, centrais sindicais e todo o suporte material possível — tal como faz quando se trata de eleições sindicais e da tirada de delegados para os congressos da entidade —, bem como promover formação permanente, à distância, enquanto durar a pandemia, acerca da conjuntura recessiva e dos ataques do capital contra os serviços públicos e os direitos da classe trabalhadora. É preciso iniciar uma grande campanha, tal como exigiu uma mãe de aluno durante o ato em frente à escola, no dia 4 de setembro, que Faisal Karam enfrente cara a cara a comunidade escolar e assuma a sua nova atrocidade.

No sentido objetivo da luta o CPERS tem muito a fazer para construir a resistência contra a destruição da educação pública e o fechamento de escolas; para tal, deve colocar todo seu aparato e militância política para a luta real, garantindo que a ocupação se mantenha até a retomada da escola por parte da comunidade escolar, e não como fazem normalmente alimentando ilusões eleitorais e institucionais, aceitando ataques e desmobilização como fatalidades irremediáveis e contribuindo para o aprofundamento do desânimo da nossa classe; ou enviando apenas um ou dois militantes da direção central. É necessário imprimir vida e dedicação à luta de resistência!

Não construiremos vitórias e nem avançaremos na consciência de classe da nossa categoria por obra do acaso. É necessário colocar a nossa ferramenta de luta — isto é, o nosso sindicato — a serviço exclusivamente da construção de debates, formações, organização por local de trabalho, incentivo moral e material para enfrentar os desmandos do capital. Caso contrário, veremos o fim da escola pública sem nada fazer, aceitando-o quase como uma fatalidade do destino — o que, sabemos bem, está longe da verdade.


#PorUmCPERSdeLutaeCombativo
#GirarMilitantesPraDefesaDaEscolaRS
#ContraofechamentoDaEscolaPública
#NenhumaEscolaPublicaAMenos
#AbaixoOsDesmandosDoGovernoLeite
#SolidariedadeDeClasseAOcupaçãoDaComunidadeEscolar
#FaisalKaramEnfrenteCaraACaraAComunidadeEscolarDoRS



26 de ago. de 2020

AS REPROVAÇÕES EM PERÍODO DE PANDEMIA SÃO PARA TENSIONAR A APLICAÇÃO DA "NOVA ECONOMIA"


O ano letivo de 2020 iniciou no dia 27 de fevereiro e em 19 de março as aulas foram suspensas, inicialmente, pelo período de quinze dias por conta da pandemia. Essa era a informação que chegava para a população de forma geral; ou seja, saímos imaginando que passados 15 dias estaríamos de volta à dita “normalidade”. O fato, contudo, é que isso não aconteceu e podemos dizer que a vida, tanto de estudantes quanto de professores, só se modificou em direção à incerteza e, desde então, são tantas coisas novas para a humanidade que, na tentativa de elencar, certamente deixaríamos algo de fora.

Trazendo a realidade do “nosso quadrado” e considerando as escolas que iniciaram o ano na data proposta pelo governo, foram contabilizados no máximo 17 dias em sala de aula. Porém, se considerarmos as reuniões de formação, professores em processo de mudança de escola por conta de fechamento de turmas, turnos e até escolas, falta de docentes em muitas disciplinas, poderemos finalmente fechar em 14 dias de aula – tempo insuficiente para a criação de laços entre a comunidade escolar.

Passados 5 meses da suspensão das aulas, é provável que a sensação mais comum seja a de estarmos vivendo o ano dos horrores na educação pública brasileira, pois a cada dia nos deparamos com propostas das mais escabrosas que vão desde dar início ao envio de atividades de forma digital, sem uma orientação que leve minimamente em consideração a falta de estrutura e a autonomia das comunidades escolares; a obrigatoriedade da realização de cursos online de forma desordenada, criação de plataforma digital seguida de cadastro de estudantes e professores no mesmo período, realização de formação online com geração de atestados e/ou certificados, provocando previsível sobrecarga do site em todas as situações. Porém, algo ainda mais macabro se aproximava quando soubemos de escolas que se submeteram acriticamente às orientações da SEDUC e das CREs, passando a convocar estudantes para a realização de “semana de avaliações para posterior realização de conselho de classe...”.

Cabe ressaltar que professores sem orientação da direção da escola e muitas vezes sem se dar conta sobrecarregaram seus estudantes com atividades extensas e fora da realidade, sem contar as famílias que vêm perdendo seus empregos, além de estudantes que ajudam a cuidar de irmãos menores, a escassez de alimentos (e às vezes até de saneamento básico), tudo isso aliado à iminente possibilidade do contágio pela doença (acrescentando ainda o fato de alguns terem pais que contraíram a doença e outros que chegaram a morrer). De que forma, então, podemos nos sentir capazes de avaliar quando sequer uma única condição humana é oferecida para estes estudantes; sem falar na ausência do contato com colegas e professores; de equipamentos minimamente capazes de dar conta de tantos acessos, documentos, pesquisas, etc.; e muitas vezes na ausência de internet? O que interessa é atender estudantes, levando em consideração suas difíceis condições, ou apressar a aplicação de projetos de governo que querem acelerar a aplicação de uma “nova economia”?

Junte-se a isso a informação de que inúmeros cadastros de estudantes foram feitos pelas próprias escolas a fim de dar conta da imposição governamental, demonstrando que a realidade é ainda mais absurda: apenas uma pequena parte consegue efetivamente acessar a plataforma. Cabe destacar que os motivos são os mais diversos e na maior parte das vezes não se deve unicamente à falta de força de vontade dos discentes, como muitos colegas e o governo estão afirmando de forma alienada.

Cientes de tudo isso, torna-se nítida a conclusão de que é impossível falarmos em reprovação no ano letivo de 2020 – ou, então, se falarmos, o decreto sobre “calamidade pública” não passará de uma farsa flagrante. Tal iniciativa, que partiu da SEDUC e das CREs, demonstra apenas que o principal “recurso pedagógico” utilizado é, ainda, o medo da reprovação, que é comprovadamente um deformador do processo de aprendizagem – problema reconhecido da boca pra fora em inúmeros debates pedagógicos promovidos pela própria SEDUC.

Isso não quer dizer que não existam problemas de determinado perfil de estudante, que pode se aproveitar da desorganização geral para não fazer nada; embora pesquisas e diversas publicações na internet demonstrem que boa parte não sente motivação para realizar as atividades sem a presença de professores e a convivência com colegas da mesma faixa etária. Sem falarmos na questionável qualidade de um ensino à distância, feito da maneira como está sendo promovido, que não atende em nada os interesses da comunidade escolar, mas cai como uma luva aos propósitos dos tubarões do ensino, como a Fundação Lemann e as empresas de Luciano Huck.

 

As “ilustrativas” informações do responsável pela informática e “inovação” da SEDUC

            Circula um áudio pelas redes sociais do responsável pelo setor de “inovação” da SEDUC, Silvio Zomer, que afirma ter sido incumbido pelo secretário de educação, Faisal Karam, de “preparar o aluno da escola pública estadual para a nova economia”. Ora, mas que “nova economia” é essa? Só pode ser a “uberização”, sem direitos trabalhistas, previdenciários, serviços públicos e outros tantos, baseado no teletrabalho e nas “novas tecnologias”. Mais adiante, no mesmo áudio, com o discurso de tirar o aluno “daquela aula do século XIX e XX”, e sem explicar exatamente como fazer isso, mas usando sempre a velha retórica vazia que não encontra respaldo na prática, de “colocar o aluno como protagonista de sua própria história”, ele admite que “no mês de março a pandemia chega e muda todas as perspectivas”, com o secretário da educação complementando que “o plano para trazer o aluno para esta nova economia deve ser acelerado e colocado de pé o quanto antes”. Ou seja, como já havíamos alertado em abril e maio[1], a pandemia está sendo utilizada para retirar direitos e aplicar os projetos neoliberais, intensificando convênios com o google em “19 estados”.

            Zomer, para tentar disfarçar, ainda afirma que “não há nenhum centavo de dinheiro público” para as plataformas do google, mas sabemos que as “novas tecnologias” – tal como google, facebook, whatsapp e outros – usam a sua “gratuidade” para acessar a intimidade dos usuários, não apenas para “mudar a opinião pública” – tal como veio à tona com o escândalo da Cambridge Analytica, terminando com a mal explicada prisão de Steve Bannon, e é retratada em documentários como “Privacidade hackeada” –, mas ter informações de mercado e comportamentais privilegiadas[2]. Ou seja, o governo do Estado, tal qual o governo federal, não apenas não investe em educação e tecnologia, como entrega de bandeja os dados da sua própria população para empresas estrangeiras que possuem forte suspeita e indícios de espionagem privada. Tal servilismo não é casual.

            Para acelerar “o plano de colocar o aluno nesta nova economia”, mesmo que muitos não possuam a menor estrutura para isso, estão sendo usados os velhos recursos pedagógicos do século XIX e XX: a coação pelo medo da reprovação. Assim como é feito em “épocas normais” para colocar estudantes dentro de determinados padrões comportamentais arcaicos, que remetem ao regime de trabalho das fábricas do século XIX e XX, onde impera o autoritarismo e as coações pelo desconto salarial ou a demissão, a “reprovação” e o cancelamento de matrículas são o terrorismo do século XXI, usado pela SEDUC e pelo tucano Karam, a partir das “novas tecnologias”, para aplicar a “nova economia” goela abaixo das comunidades escolares.

Esta é a única e exclusiva preocupação que o método da reprovação visa. Ou seja, cria um clima de terrorismo e submissão, perfeito para ser explorado pelo empresariado “meritocrático”; e jamais poderá criar uma educação de liberdade e emancipação. Além disso, já escrevemos que ser contra o EaD não significa ser contra o uso da tecnologia em sala de aula, nem contra o EaD em si; mas sim, contra o modelo que está sendo implementado, que coloca o EaD como o centro da educação, e não como um recurso secundário à sala de aula real. O fato, contudo, é que a comunidade escolar, professores e mesmo a sociedade gaúcha atendida pela escola pública não tem condições materiais para a aplicação do EaD, que é marcado mais pelo formalismo do que por uma realidade palpável. Forçar reprovação, portanto, significa forçar, dentro deste contexto, a aplicação dos projetos de “uberização” na educação pública visando cortar gastos do Estado para destiná-los ao sistema financeiro e ao empresariado agro-exportador.

        Cabe lembrar a questão brasileira da segregação do negro em relação à vida cidadã ao longo do século XIX e início do XX onde o acesso à educação era negado, seguido pelo primeiro decreto relacionado ao tema (1878) que dava permissão apenas aos negros libertos de acessarem exclusivamente cursos noturnos. Situação muito semelhante a que ainda acontece hoje com os EJAs, após os mais diferentes tipos de violência aos quais os jovens negros da escola pública seguem sendo submetidos, seja ela física (pela polícia ou até mesmo no ambiente familiar e dentro da comunidade), intelectual-afetiva, quando recebem tratamento desigual ao longo da vida escolar; ou ainda quando a pobreza os faz abandonar os estudos a fim de priorizar o emprego que vai lhes garantir o sustento.

Eis que vemos o triste elo de ligação daquela época com a realidade atual, onde capatazes de Eduardo Leite (PSDB e comparsas) de dentro da SEDUC almejam expurgar estudantes maiores de 50 anos dos cursos regulares de ensino médio noturno e ainda trabalham com a iminente intenção de fechamento de NEEJAs, indisponibilizando matrículas para EJAs no segundo semestre.

 

NOTAS


[1] Ver: http://construcaopelabase.blogspot.com/2020/06/ead-e-google-sala-de-aula-preparam.html ; http://construcaopelabase.blogspot.com/2020/06/pandemia-desculpa-que-os-governos.html ; http://construcaopelabase.blogspot.com/2020/06/fora-fundacao-lemann-da-educacao-publica.html ; http://construcaopelabase.blogspot.com/2020/04/pandemia-calamidade-publica-e-educacao.html ; e ainda: http://construcaopelabase.blogspot.com/2020/04/governo-leite-usa-pandemia-para_26.html

[2] Ver: https://cpers.com.br/educacao-vigiada-governo-entrega-dados-de-900-mil-gauchos-a-exploracao-de-multinacionais/?fbclid=IwAR3EQsQFYc_yI97br4DRiFW5m91ymCW93lMfsFCmlBgp3oWoL6TacUPfIZ4